por Lóren Graziela Carneiro Lima*

Ao pensarmos a mulher branca brasileira do século XIX, é natural que nos venha à memória mulheres comedidas, obedientes aos maridos, zelosas mães e donas de casa cuja preocupação primordial era a educação de seus filhos, a vida religiosa e a complacência ao marido.

“Um sólido ambiente familiar, o lar acolhedor, filhos educados e esposa dedicada ao marido, às crianças e desobrigada de qualquer trabalho produtivo representavam o ideal de retidão e probidade, um tesouro social imprescindível (D´Incao 2002)”

Esta é a imagem da mulher burguesa do século XIX. E a mulher branca empobrecida do século XIX, qual era sua realidade?

Muitas mulheres desde aquela época já enfrentavam a pobreza, a responsabilidade de cuidar da casa e garantir o sustento dos filhos.

A documentação encontrada no Arquivo Público de Pará de Minas, município  localizado no Centro-Oeste de Minas Gerais, permite o recorte de uma época, uma análise sobre quem eram essas mulheres brancas empobrecidas do século XIX que viviam nessa região.

Permite também conhecer as maneiras de sobreviver e resistir  adotadas por esses sujeitos históricos frente às regras sociais e morais impostas pelo Padroado.

A Igreja Católica criou um modelo submisso de mulher e tentou implantá-lo desde o início na colônia. Este modelo visava introduzir a fé católica na família e por meio dela a disseminação nas comunidades. O núcleo familiar assim planejado, teria como cabeça o homem, aquele que pensa, age e sente; à mulher caberia o papel de procriar. Um corpo, uma função.

Dos primeiros anos da colonização até meados do século XIX a história das mulheres transcorreu num quadro de tensões políticas e pressões da cultura dominante. A história das mulheres também foi a história dos problemas ligados aos seus afetos, seus filhos, à sua casa e sobrevivência, dentre outros. De acordo com Luciano Figueiredo (2002), Minas foi a região com o mais alto nível destas tensões no período colonial. “Colonos e colonizadores disputavam cada grão de ouro com uma voracidade inigualável (Figueiredo, 2002)”.

Importante observar que as questões econômicas da época, ao mesmo tempo em que suscitaram as tensões, também levaram a uma inserção cada vez maior das mulheres, principalmente as pobres na economia doméstica de subsistência.“Ao que tudo indica, entre as camadas empobrecidas a divisão dos papéis obedeceu muito mais às necessidades econômicas que qualquer preconceito sexual na distribuição de tarefas. A transferência da chefia dos domicílios para a mulher nos núcleos familiares simples, tornou a atuação feminina tão importante quanto mais íntima era a associação entre vida doméstica e trabalho produtivo (Figueiredo, 2002)”.

Analisando cinco processos criminais da região de Pará de Minas entre o período de 1874 a 1889  foi possível traçar um perfil de mulheres brancas das baixas camadas sociais que viviam nesta região no final do Império.

Nos processos judiciais analisados no Arquivo Público constatou-se a presença de nove mulheres brancas, sejam como vítimas, testemunhas ou rés. São mulheres analfabetas, que se embriagavam com frequência. São mulheres fiandeiras, costureiras e vendedoras de quitandas. Apenas uma era oficialmente casada, outras três amasiadas. Consta em um destes processos que Maria Eulália, mulher envolvida num dos crimes, mantinha relações ilícitas com dois escravos, Vicente e Mariano.

Crimes passionais pareciam comuns à época nas classes mais empobrecidas. Algumas mulheres não sabiam ao certo sua idade, outras informaram ter entre vinte e sete (27) e quarenta e oito (48) anos.

Em cinco processos analisados três tinham como motivação crimes passionais. Processo aberto em 1874, registra que  Maria Eulália e Mariano eram acusados de matar por  espancamento o escravo Vicente. Segundo testemunhas, o crime se deu por ciúmes que Mariano sentia por Maria Eulália com Vicente. Parente relata também no processo que Maria Eulália apenas ajudou Mariano a acabar de matar o escravo Vicente.
Outro processo de 1882 apresenta como ré Anna Ferreira de Jesus (vulgo Anna Pomba) que foi acusada de mandar seu amásio João Eugênio espancar sua amante Maria Genoveva. Anna exigiu que ele fosse até a casa de Genoveva e que ele mesmo a espancasse. Segundo uma das testemunhas:

“(…) ter serteza ter ouvido que Anna Ferreira de Jesus, foi quem mandou João Eugênio espancar Maria Genoveva (Rolinha) e que antes deste acontecimento a dita Anna Pomba, disse em casa de Maria Justa que se quando chegasse João não fosse espancar a dita Rolinha que ella o tocaria da casa para fora.”

Consta também uma acusação de 1889 em que Rita Maria de Jesus teria furtado quatrocentos mil réis e objetos na “povoação dos Meirelles”. Em sua defesa alega viver em condições miseráveis sem o marido e com cinco filhos para criar.
Diante desses registros históricos notamos uma certa distância entre o romantismo burguês do século XIX e a realidade social vivida por estas mulheres. Nem todas viviam os requintes sociais do Período Imperial e tampouco desfrutavam de uma certa tranquilidade e romantismo.

Mulheres enfrentaram realidades distantes das “corretas” regras sociais. Na verdade, elas lutaram para sobreviver. A bebida, a violência, os casos extra-conjugais, o amasiamento e as brigas eram parte do seu cotidiano.

É possível, então, fazer uma analogia entre a mulher branca empobrecida do século XIX e a mulher branca empobrecida do Brasil atual. Muitos aspectos semelhantes dessas duas realidades permanecem, mesmo com as mudanças, os avanços econômicos, tecnológicos, políticos e sociais transcorridos do século XIX ao XXI. A desigualdade social é um desses aspectos. Fosso, ferida aberta na sociedade brasileira que atinge a vida de mulheres.

Referências Bibliográficas:

  • Arquivo Público de Pará de Minas, FCAM- PRC-XX-(07)/(01)/(09)/(11)/(06)
  • D´Incao, Maria Ângela. “Mulher e Família Burguesa”. Priore, Mary Del & Bassanezi, Carla. (org) História das Mulheres do Brasil. São Paulo: Contexto, 2002
  • Figueiredo, Luciano. Barrocas Famílias: Vida Familiar em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Huicitec, 1997.
  • Priore, Mary Del. A Mulher na História do Brasil. São  Paulo: Contexto, 1994.
  • Silveira, Marco Antônio. O Universo do Indistinto: Estado e Sociedade nas Minas Setecentistas (1735-1808). São Paulo: Huitec, 1997.

*Lóren Graziela Carneiro Lima é professora graduada em História pela Universidade de Itaúna/MG, pós graduada em História e Cultura de Minas Gerais pela Puc/MG, possui o curso de aperfeiçoamento em História da África e Cultura Afro Brasileira pela UFMG, é coordenadora do setor educativo do Museu Histórico de Pará de Minas.