por Ana Maria Campos*

Os moradores da antiga região de Pará de Minas conhecida como  Arraial Novo, Serro, Várzea da Cruz, Capoeira do Meio assistiram a alteração do nome de uma parte daquela área,  devido à construção do majestoso prédio do Ginásio São Francisco – Departamento Masculino, inaugurado em 25 de fevereiro de 1943, prédio que é atualmente a Escola Estadual Fernando Otávio.

A escolha do local para o importante educandário, cujo patrono estendeu-se ao bairro, foi motivada pela facilidade de acesso ao prédio por estar no caminho para a Capital Belo Horizonte, ser em frente à Praça de Esportes que também serviria às atividades físicas dos alunos e ainda, por estar localizada nas imediações a chácara residência do então governador do Estado de Minas Gerais, Benedito Valadares, cujo governo viabilizou o referido Ginásio. Tais situações, naturalmente, conduziriam à valorização do território.

Antecedendo o Ginásio São Francisco, haviam sido inauguradas em 1940 a Praça de Esportes e a Fábrica Escola Benjamim Ferreira Guimarães, atual Coopará, constituindo-se em atrativos para a região que principiava o desenvolvimento.

No relatório do Prefeito Osvaldo Ribeiro Lage publicado em 1959, há importantes informações sobre o bairro. No minucioso e bem elaborado texto, o prefeito informa-nos que a Prefeitura de Pará de Minas foi a loteadora do Bairro São Francisco por força da Lei Municipal Nº 338, de 17 de novembro de 1958, que autorizou o executivo a urbanizar os terrenos que se encontravam incorporados ao patrimônio municipal desde o balanço de 1953.

A Prefeitura seguindo o plano diretor, fez a terraplenagem de 11 ruas e a urbanização de 451 lotes, dos quais 190 foram vendidos a particulares, 43 doados à Fundação da Casa Popular e 12 reservados para prédios e obras de interesse público. Nos lotes vendidos e em parte dos doados, na época da elaboração do relatório do prefeito, 33 prédios já estavam contruídos ou em construção.

O bairro foi dotado de abastecimento d’água, numa extensão de 4.370 metros de canalização. Duas caixas d’água com capacidade de 50 mil litros cada foram construídas, iniciando o abastecimento em 31 de dezembro de 1958. No ano seguinte, dentro das comemorações do Centenário de Pará de Minas, lá foi inaugurado o Conjunto Residencial Popular, em 20 de setembro, às 16h30min.

Anos mais tarde, em 17 de setembro de 1975, foi  reforçado com a inauguração do  novo serviço de abastecimento de água dos bairros São Francisco, Santo Antônio, Vila Maria e adjacências. Algumas ruas receberam iluminação pública, totalizando 1.170 metros de rede elétrica instalada, quando do loteamento do bairro.

A Prefeitura estimulou a venda dos terrenos, dando isenção fiscal aos lotes e às construções lá licenciadas, visando valorizá-los. Vários lotes foram reservados para fins públicos, sendo doados à Fundação da Casa Popular. Um quarteirão inteiro foi deixado para praça, percentagem superior às exigidas pela Lei Nº 373, de 30 de novembro de 1956, que regulava a execução do plano diretor. À Prefeitura foi destinado 396 lotes vendáveis e, ao finalizar a administração Osvaldo Lage restavam ainda 206 para vender. A urbanização do bairro foi completada nas administrações seguintes.

Os franciscanos do Ginásio São Francisco, educadores e líderes religiosos por excelência, ficaram eternizados nas ruas e na escola do bairro, que receberam os nomes deles ou de pessoas e temas ligados ao seu patrono, prova da influência positiva que exerceram na comunidade.

O bairro foi crescendo e, em 1966, a 2ª paróquia de Pará de Minas – Paróquia São Francisco –  lá foi instalada para assistência religiosa aos moradores da região. O prédio próprio do Grupo Escolar Frei Concórdio, atualmente Escola Estadual, inaugurado em 12 de junho de 1968, ministrando o ensino da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental, e a inauguração da Escola Emendativa Dr. Lage (Apae) em 06 de fevereiro de 1972, consolidaram a importância do bairro dentro do contexto da cidade. A arborização da região foi fator importante para a escolha do local para a construção da Escola Emendativa.

No terreno do Ginásio São Francisco havia um campo de futebol de dimensões oficiais, que permaneceu em atividade mesmo depois da estadualização do educandário. Por mais de trinta anos foi o local onde os alunos também praticavam a educação física e disputavam animados torneios. Entre os anos de 1968 e 1975 para lá se mudou o futebol da cidade, em decorrência do fechamento do Estádio do Paraense Esporte Clube e das obras de construção dos campos do Guarany E.C. e  do Rio Branco E.C. Boa parte da história do futebol de Pará de Minas aconteceu nesse campo, que era carinhosamente chamado de “estádio dos eucaliptos” por conta dos milhares de árvores dessa espécie existentes na região. Com a criação do Bairro Vila Maria em 1976 aproximadamente, o campo foi desativado e arruado.

A melhoria da Ponte Grande em 1966, com duas pistas ligando a região ao centro, foi outro marco de desenvolvimento, complementado com as obras de alargamento da Avenida Presidente Vargas em toda a extensão, em junho de 1988, quando também foi duplicado o trecho que se inicia na Cooperativa dos Produtores Rurais até o Parque de Exposições, numa extensão de dois quilômetros.

O bairro foi escolhido para a construção da sede própria dos escoteiros, inaugurada em 27 de setembro de 1987 e para uma Creche Municipal, inaugurada em 20 de setembro de 1991, reforçando a assistência educacional das crianças lá residentes.

O desenvolvimento comercial tornou-se tão expressivo que foi inaugurado o Centro Comercial São Francisco na Rua Porciúncula, em 17 de setembro de 2005. O comércio intenso atraiu o Banco Sicoob Ascicred para a Avenida Presidente Vargas, agência inaugurada em 08 de outubro de 2010, sendo a primeira agência bancária fora da região central da cidade.

Os moradores mais antigos podem testemunhar o crescimento do bairro, relembrando os poeirentos caminhos que conduziam à estrada igualmente poeirenta para Belo Horizonte, as ruas também empoeiradas que foram sendo calçadas, assim como a Avenida Presidente Vargas que mais tarde, na década de 1980, foi asfaltada. Podem relembrar o desmatamento ocorrido para a construção do bairro e contar muitas outras histórias acontecidas para que o crescimento e melhoria da infraestrutura de tão aprazível bairro se tornasse realidade e o transformasse em um cantinho do céu.

O escritor, poeta e professor Antônio Augusto de Mello Cançado encantou-se com o bairro e o exaltou no texto “Em louvor do Pará”, publicado no Jornal Paraense, no mês das comemorações do centenário de Pará de Minas: “E que o teu bairro de São Francisco, com a geometria cartesiana de suas praças e de suas ruas, seja o espelho de teu futuro, ó terra de nossos pais! ó terra de nossos filhos! ‘Il Poverello’, ‘Bernardonne’, ‘Umbria’, ‘Porciúncula’, ‘Santa Clara’… que mais será preciso para um poema?”

Fontes:
– Prefeitura Municipal de Pará de Minas; Administração Municipal 1955/958; Prefeito Osvaldo Ribeiro Lage; Impresso na Gráfica Emília; Pará de Minas; Págs. 12 a 18;
– Livro Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Piedade. 1966
– Jornal Câmbio 2, Ano I, Nº 2, Pará de Minas, 26.09.1987, pág.6
– Jornal Câmbio 2, Ano I, Nº 1, Pará de Minas, 17.09.1987, pág.5
– Jornal Câmbio 2, Ano I, Nº 2, Pará de Minas, 26.09.1987, pág.6
– Jornal Diário, Ano XIII, Nº 3399, Pará de Minas, 08.10.2010, pág.6
– Jornal Paraense, 27.09.1959, Ano III, Nº 16, texto “Em louvor do Pará”, autoria Mello Cançado, pág. 13
– Convite de Aniversário do Município, 2005
– Informações de Luiz Viana David à Ana Maria de Oliveira Campos, em 18.05.2012.
– Informações de Maria José Pinto Coelho à Ana Maria de Oliveira Campos, em 03.08.1998.
– Programa Especial 1859 – 1959. 1º Centenário da Emancipação Política do Município de Pará de Minas. Gráfica Emília-Papelaria, Pará de Minas, pág.37

* Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas, diretora do Museu Municipal.

Em 14.05.2012.