por Luiz Viana David

Há mais ou menos trinta dias (no mês de Junho/2013) faleceu no Asilo Ozanan, em Pará de Minas, um dos tipos folclóricos mais famosos da cidade: Pedrinho da Vila. Tinha noventa e três anos e, há uns quinze, vivia no asilo. Antes, morava na Vila Vicentina, nas proximidades do cemitério. Não era um anão, mas bastante baixo, talvez tivesse [menos de] 1,60 CMs de altura. Rechonchudo e bastante feio de cara, o suficiente para para as mães patafufenses ameaçarem os filhos peraltas: – fica quieto menino, se não vou chamar o Pedrinho da Vila prá te pegar! Mas era uma doçura de pessoa, com sério problema de audição, tinha a fala prejudicada. Preguiçoso até onde uma pessoa pode ser. Jamais foi visto fazendo qualquer esforço físico. Mas andava sempre limpo, de sapatos e muitas vezes paletó. Fazia ponto na rua Direita, na esquina da Casa Faria, então a maior loja da cidade e da região, passava ali a maior parte de seu tempo. Era o feioso simpático. As moças que trabalhavam no comércio, as estudantes, as operárias, sempre tinham para ele uma saudação afetuosa, que ele respondia fazendo uma careta horrorosa como se mandasse beijos a cada uma. Teve um irmão, de apelido Capuca, o oposto dele, irascível e trabalhador, nada popular, um campeão no serviço de capina de lotes. Quando alguém sugeria a Pedrinho que ele fosse trabalhar como o irmão, ele grunhia a resposta: -Capuca bobo, bobo! Acho que os dois não se davam muito bem. No caso de Pedrinho, trabalhar para que? se todas as suas necessidades eram atendidas pelos amigos. Não lhe faltavam roupas, nem sapatos, não tinha vícios como tabaco ou bebidas, sua distração era apreciar o vai-e-vem das moças na rua Direita. E alimentava-se muito bem, a cada dia era o convidado especial do almoço na casa de uma família, agenda que funcionou por décadas. Aos domingos, por exemplo, o almoço era na casa de Mariângela e Pedro Faria, o caçula dos irmãos donos da loja em cujas portas ele passava boa parte de seu tempo. Lembro-me que num dos dias úteis, Pedrinho se alimentava numa residencia nas imediações da rua João do Neto, nesse dia, entre dez e meia e onze horas ele podia ser visto descendo a rua em direção à casa agendada. Com o avançar dos anos, Pedrinho que já ouvia pouco e falava quase nada, ficou praticamente cego, quando foi viver no asilo. Parece ter se adaptado bem, um clipe feito pela TVI, que sempre era exibido, mostrava um Pedrinho bem feliz. E não foi abandonado pelos amigos que o visitavam sempre, embora tenha sobrevivido à maioria, afinal por poucos anos não se tornou um centenário.

Por muito anos, foi figura carimbada na ruas de Pará de Minas, um baixinho surdo-mudo, que tinha a peculiaridade de aparecer por aqui, após longos períodos de ausência. Eu tenho a impressão de que ele tinha parentes nas imediações do distrito de Sitio Novo, que fica às margens da BR 262, pertencente ao município de Mateus Leme. Isto porque sempre o via por ali, nas minhas idas e vindas diárias entre Pará de Minas e Belo Horizonte. Nunca soube o nome do personagem e acredito que poucas pessoas por aqui tinham conhecimento de sua graça. Era chamado de “Mudinho” apenas, e era muito difícil qualquer comunicação com ele, que preferia gesticular na tentativa de se fazer entender. Foi outro totalmente desprovido de atributos físicos, aliás, era muito feio. Usava um chapeuzinho, paletó, calças sempre muito curtas, no melhor estilo pega-frango, talvez porque só ganhasse roupas de menino. Calçava sandálias feitas de sola de pneus. E não largava uma manguara, talvez de um metro de comprimento, em cuja extremidade pendurava uma pequena trouxa com seus poucos teréns. Certamente era um andarilho, que tinha como referencia a BR 262, pois podia ser visto também nas imediações de postos de gasolina localizados às margens da estrada, até no Triângulo Mineiro. Bobo não era, os olhos expressavam bastante vivacidade. Nunca entrava em um estabelecimento para pedir qualquer coisa, ficava na porta e não havia comerciante que resistisse àquele olhar pidão e à boca sorridente de poucos e podres dentes. Nos bares e restaurantes, ganhava comida suficiente para se fartar, salgados, refrigerantes, balas e doces que apontava na vitrine, e quase sempre um prato feito, que ele sem ninguém pedir ou mandar, ia comer fora do recinto. Às vezes podia ser visto durante horas sentado, quietinho, no banco de uma praça qualquer. Perambulava por toda a cidade.

Certa vez, há uns vinte anos ou pouco mais, um caminhão carregado de carvão perdeu os freios na descida da avenida Ovídio de Abreu, e quando chegou cá embaixo, naquela rotatória, que ainda não existia, o motorista perdeu definitivamente o controle do veículo que veio a tombar diante da residencia de número 5, da rua João Alexandre, onde ainda vive a família do meu querido amigo Mário “Camisa 10” Lara. Pânico geral nas imediações do acidente, com aquela montanha de carvão despejada na calçada, invadindo a casa e lojas vizinhas, além de muita poeira que dificultava o resgate de eventuais feridos. Infelizmente, na tragédia faleceu dona Hilda, mãe de Mário Lara, que na hora varria o passeio da casa e não percebeu o caminhão descendo perigosamente. Populares continuaram o trabalho de busca com pás ou com as mãos mesmo. Eis que de repente, emerge do monte de carvão, mais parecendo um toco enegrecido, a figura do Mudinho, segurando firmemente a manguara, mas felizmente sem nenhum ferimento. Assustadíssimo, mas vivinho da silva. E se já era bem visto pela população pela simplicidade e humildade, ganhou fama de protegido de Deus, pois só um milagre para explicar a sua sobrevivência, incólume, daquele acidente.

Não sei se já morreu o Mudinho. Há muitos anos não é visto nas ruas de Pará de Minas, nem perambulando pelas margens da 262. Se já subiu, deve estar, como Pedrinho Vila, gozando da glória do Paraíso, conforme garantido por Jesus Cristo.

Fonte: https://www.facebook.com/luiz.vianadavid1?fref=ts