Ana Maria Campos*

             A Cidade do Pará, em Minas Gerais, ainda no processo educacional de escolas públicas singulares, isoladas, onde turmas de alunos separadas por sexo eram preparadas nas residências dos professores ou qualquer outro local improvisado, ficou em júbilo com o seu primeiro grupo escolar, em 1914.     
            Com o índice alarmante de analfabetismo no país, a chegada do primeiro estabelecimento de ensino da cidade foi um significativo marco de desenvolvimento sócio-cultural para a comunidade paraense. Veremos como isso aconteceu.
           O processo de implantação dos grupos escolares, iniciado no Estado de Minas Gerais em 1906, com a Lei Nº 439, de 28 de setembro, foi resultado do novo modelo educacional implantado após a proclamação da república. A Lei previa a prioridade de instalação dos grupos escolares nos lugares que já possuiam edifícios disponíveis, terrenos, ou somas em dinheiro para efetiva-los. Oito anos se passaram para a Cidade do Pará conseguir o seu grupo escolar.
           Imaginem vocês, a pacata cidade ainda sem calçamento e com sinais bem visíveis de desenvolvimento e expansão: já possui água canalizada, luz elétrica, estação telegráfica, duas indústrias de tecidos, ramal ferroviário, dois cinemas, um teatro, um clube literário, um hospital, duas igrejas e uma capela e, agora, recebendo mais esse benefício que seria instalado em prédio próprio, gigantesco, de bela arquitetura clássica. Certamente, os habitantes da Cidade do Pará compararam o majestoso prédio da escola a um palácio, desconhecendo que a arquitetura suntuosa daquela edificação servia aos ideais republicanos. A Cidade do Pará parou para comemorar sua inauguração.
           O Grupo Escolar da Cidade do Pará foi criado pelo Decreto Nº 3.804, de 28.01.1913. A denominação “Torquato de Almeida” foi dada logo depois, por ato do governo do Estado publicado em 07 de fevereiro de 1913, no jornal “Minas Gerais”. Justa homenagem ao Presidente da Câmara e Agente Executivo, que conseguiu com as autoridades do Estado esse benefício para a comunidade.
           A construção do edifício escolar foi entregue ao italiano Amedeo Celso Grassi, residente na cidade. O terreno em que foi construído, adquirido pela municipalidade do sr. Francisco de Araújo Lopes Cançado (Chiquinho Bahia), na administração de Fernando Otávio da Cunha Xavier(SILVA:2), somente em 1970 teve sua doação ao Estado legalizada.
           A diretora Maria Ignez Mendes de Paula, ao providenciar a documentação necessária para o recebimento de uma verba federal para a reforma da escola, não encontrou a escritura do terreno onde a escola foi edificada, uma das exigências para se efetivar a doação da verba. Descobriu-se, então, que ele ainda pertencia ao município. Imediatamente, Maria Ignez fez contato com o prefeito José Porfírio de Oliveira e com a câmara de vereadores para comunicar a descoberta e solicitar a legalização da doação ao Estado (Jornal do Pará, 1994:5). Prontamente, sua reivindicação foi atendida e se transformou na Lei Nº 1199, de 29 de maio de 1970; a escritura se encontra no livro 199, fl.45v, de 06 de julho do mesmo ano.
           A solenidade de instalação oficial do Grupo Escolar “Torquato de Almeida” realizou-se às 13h do dia 22 de março de 1914, no magnífico prédio próprio localizado na Praça Cel. Francisco Torquato, 22, espaço central da cidade. A cerimônia foi abrilhantada pela Banda de Música “São Luiz Gonzaga”, de Mateus Leme.    
           Diversas autoridades compareceram à inauguração: Augusto Lucas da Silva, inspetor regional, representando o dr. Américo Ferreira Lopes, Secretário dos Negócios do Interior do Estado, a cuja pasta estava vinculada a Educação(SILVA: 2); Torquato de Almeida, presidente da Câmara e agente Executivo, inspetor escolar municipal, patrono do estabelecimento, também no ato representando o presidente do Estado dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro; dr. Orozimbo Nonato da Silva, advogado de renome na Capital, orador oficial da cerimônia, irmão do promotor recém chegado dr. Aristides Milton;  dr. Pedro Nestor de Salles e Silva, juiz de direito; Padre José Pereira Coelho, vigário da Paróquia N. Sª da Piedade, que na ocasião também representava o dr. José Alves Ferreira e Mello; Padre Silvestre Pereira Coelho; Padre Francisco Lopes de Araújo (Padre Neném), vigário de Barbacena, entre outras autoridades judiciais, membros da Câmara, do comércio indústria e lavoura, representante da imprensa local, alunos e professores do grupo (ATA de instalação: 1914).
            A benção do prédio foi oficiada pelo vigário Padre José Pereira Coelho, auxiliado pelos padres Silvestre Pereira Coelho e Francisco Lopes de Araújo. A seguir, o orador oficial, doutor Orozimbo Nonato, fez um excellente, substancioso, longo e erudito discurso, que foi merecida e geralmente applaudido (Idem). Dona Alice Andrade fallou longa, satisfatória, brilhante, eloquente e apreciadamente sobre o acto, representando os professores; Oscar Ferreira de Oliveira, aluno da 4ª série, e Clotilde Xavier de Abreu, aluna da 3ª série , fallaram brilhantemente e foram excessivamente apreciados.Torquato de Almeida encerra a cerimônia com um  substancioso discurso repassado de patriotismo, de enthusiasmo e de muita erudição(Ibidem).
            O grupo escolar iniciou seus trabalhos com o diretor Fernando Otávio da Cunha Xavier, que o comandou de setembro de 1913 a janeiro de 1919(ALMEIDA:73). No primeiro ano de atividade 525 alunos foram matriculados(SILVA). Seus primeiros professores foram José Pereira da Costa, Maria das Dores Leite, Idalina Moreira de São Pedro, Maria Eliza de Paula Borges, Maria Raimunda de Morais, Jenny Versiani Caldeira, Maria Calixta Marques, Blandina de Araujo Milton e Alice Andrade(ALMEIDA:73). É interessante observar, em fotografia do acervo do Muspam, o pátio interno do prédio dividido ao meio por um muro, separando meninos e meninas no “recreio”, evidência dos costumes repressores vigentes na época
           É presumível que o entusiasmo da comunidade com a escola tenha se sobreposto às preocupações com os conflitos mundiais, que culminariam na primeira grande guerra, dois meses depois da inauguração do grupo escolar. Estariam os habitantes da Cidade do Pará cientes das notícias sobre as descobertas do já famoso Einsten e das possibilidades da sua teoria da relatividade, que breve seria anunciada? Será que notícias tão importantes assim chegaram à cidade? Não se sabe. O que sabemos é que seus habitantes valorizavam a formação educacional, pois a cada ano o número de alunos do grupo escolar aumentava. A escola cresceu tanto, que um novo prédio foi inaugurado em 1935, para atender a demanda. O Grupo Escolar Torquato de Almeida foi, até 1945, a única escola primária em Pará de Minas. O novo prédio construído para abrigar as turmas anexas, inaugurado em 1935, transformou-se no Grupo Escolar Governador Valadares em 1945.
            Por essa escola já passaram memoráveis professores, que estão inseridos na história da educação de Pará de Minas, como o professor Pereira da Costa (Inhozé). Nomeá-los todos chega a ser árdua tarefa, pois pode ocorrer a omissão involuntária de um nome e cometermos assim um ato de injustiça. Melhor não faze-lo.
            O prédio do Grupo Escolar Torquato de Almeida, pela sua imensidão e espaço geográfico privilegiado, serviu à comunidade em muitas outras ocasiões de significativas manifestações sócio-culturais, até o advento do Automóvel Clube e do Patafufo Country Club.  Exemplificam a afirmativa,  os festejos do jubileu de prata do vicariato do Padre José Pereira Coelho, os bailes, desfiles para eleição de rainha dos estudantes, rainha do centenário de Pará de Minas, recepção a políticos, entre outras promoções que lá aconteceram.
            Em julho de 1974, por Lei Estadual, a referência “grupo escolar” foi alterada para “escola estadual”. Em janeiro de 1998 a escola foi municipalizada e essa condição integrou o seu nome, passando a ser Escola Municipal Torquato de Almeida. A municipalização durou pouco, somente quatro anos e, pelo Decreto Estadual Nº 42.490, de 05.04.2002, sua nomenclatura retornou para Escola Estadual Torquato de Almeida.
           À frente dessa instituição escolar sempre estiveram dedicados mestres. Exemplifico, citando a diretora que mais tempo a comandou:  Maria Ignez Mendes de Paula. Após 31 anos, de 1966 a 1997, captaneando a conceituada instituição educacional, Maria Ignez aposentou-se em 17.12.1997.
Cronologicamente, foram seus diretores: Fernando Otávio da Cunha Xavier (1913); Antônio Baptista dos Santos (1918); José Gonçalves de Mello (1919); José Pereira da Costa (1920); Salathiel Rodrigues de Mello (1922); Jaime Pereira Pinto (1923); Alice Andrade (Substituta); Edsonina Castelo Branco (1930); José Fábio Vilhena (1931); Maria das Dores Leite (1934); Antônia Antonieta Mendonça (1934 também); Anna Xavier Capanema (1940); Alice de Abreu e Silva (1940 também); Anna Xavier Capanema (1941); Orosina Cecílio Mendonça (1941); Elza de Queiroz Xavier (1945); Maria Vicentina de Almeida (1946); Maria da Conceição Morato ( 1946); Olga Villaça (1949); Maria Vicentina de Almeida (1951); Maria José Moreira (1954); Teresinha Oliveira (1955); Elvira Xavier de Melo (1955); Maria Ignez Mendes de Paula (1966); Hellen Nice Campolina Ferreira (1998; diretora no período da municipalização); Marluce de Sousa Pinto Coelho (2000; diretora no período de transição da escola do Município para o Estado) e Leda Silva (2002). Atualmente,  Maria Perpétua Pinto da Silva a dirige desde 2004 (REL.Diretores, 2009).
            A Escola Estadual Torquato de Almeida é um marco na história da educação do município de Pará de Minas. Seu prédio histórico foi tombado pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Histórico de Pará de Minas, pelo Decreto Nº 2768, de 13 de abril de 1998.

Fontes:
– Ata da instalação do Grupo Escolar Cel. Torquato de Almeida. 
  22.03.1914. Cópia. Arquivo Muspam.
– ALMEIDA, Robson Correia de. Pará de Minas sua vida e sua gente.
  Belo Horizonte. Indústrias Gráficas Vera Cruz. 1983, pág. 73.
– ARAÚJO, José Carlos Souza. Os Grupos Escolares em Minas Gerais: a 
  reforma João Pinheiro (1906). Universidade Federal de Uberlândia.
– FERREIRA, Flávio Celso Grassi. Construções de Amedeo Celso
  Grassi. Manuscrito doado pelo autor ao Muspam, em 1990.
– Jornal do Pará. Nº 32, pág. 5. Torquato de Almeida uma escola aberta à
   comunidade. 16 a 22.12. 1994.
– RELAÇÃO, Diretores da Escola Estadual Torquato de Almeida. 
  Documento oficial fornecido pela E. E. T. Almeida. 18.02.2009. Arquivo
  Muspam.
– Lei Municipal Nº 1199, de 29.05.1970. Arquivo E.E.T. A.
– Escritura Livro 199, fl. 45v., de 06.07.1970. Arquivo E.E.T. A.
– SILVA, Mário Luiz. E.E. Torquato de Almeida. Primeiro Grupo Escolar
  de Pará de Minas. 24.03.1980. Não publicado. Cópia. Arquivo Muspam.
. SILVA, Mário Luiz. As primeiras escolas públicas primárias de Pará de 
  Minas (Complementação do trabalho). S/data. Não publicado. Cópia.
  Arquivo Muspam.
. Depoimento de Maria Ignez Mendes de Paula à Ana Maria Campos, em
  25.02.2009. Projeto Histórico da Escola Torquato de Almeida. Muspam.

* Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas/MG