Angela Xavier*

Saí de Pará de Minas junto com muitos jovens de minha geração para estudar em Belo Horizonte e, como muitos, nunca mais voltei a viver na minha terra natal. Minha geração se espalhou por esse Brasil afora mas sempre voltamos à terrinha para matar a saudade e rever familia e amigos. E, fato curioso, sempre que eu retornava, havia algo diferente. Em pouco tempo a cidade onde nasci e cresci foi desaparecendo e, em seu lugar nascia outra que, ainda hoje, estranho. Para quem ficou, as mudanças ocorreram naturalmente sendo eles próprios os agentes das mudanças. Era o progresso que chegava. Era dinheiro circulando.

Vi quando derrubaram a velha Matriz. Acreditavam que ela estava muito velha e ia desabar sobre os fiéis. Uma nova já estava em gestação, mais ampla e moderna. Quando ia ao Pará nos finais de semana, eu ficava olhando a demolição. Uma grande equipe trabalhava incessantemente. Havia um grande guindaste. com uma bola de ferro pesadíssima na ponta, batendo nas paredes grossas da igreja que resistia. Os objetos de culto, os santos e quadros foram doados a igrejas dos distritos, outras coisas como o relógio, pedaços de altar, telas enormes ficaram guardados num cômodo do Asilo das meninas tranformado em faculdade. D. Anita Sales encontrou abandonado, num canto, um quadro pintado por meu avô, Alfredo Leite, retratando a matriz mais antiga de 1846, pintado em 1946 por ocasião do centenério da paróquia. Essa amiga da família recolheu o quadro e levou para minha mãe. Esta foi a única pintura do meu avô que minha mãe teve e que hoje tenho o privilégio de possuir.

Assim como a velha matriz outros prédios menores, referências de minha infância, foram derrubados: as casas amarelas, a casa do meu tio Tavinho, a casa do Cornélio Moreira, a casa da Anita Sales, a casa do Silvino Silva, a casa de minha avó Lilina na rua são José 389. Igual destino teve a casa de minha outra avó Cota que ficava onde hoje é o INSS, a linda construção art nouveau do Júlio Leitão na rua direita, o prédio antigo da Prefeitura Municipal, uma bela construção, a casa arborizada da Marta de Abreu, onde hoje é o Banco Real. Também as casas dos meus tios, tio Silvio e tio Juvenal não existem mais, nem os cinemas Vitória e Imperial, o bar do Ari onde a gente comprava deliciosos picolés redondos de côco. Não ficou de pé nem o sítio do personagem mais importante da cidade, o Benedito Valadares. A área verde ao redor da cidade desapareceu e o clima que já foi agradável, chegando a ser muito frio e nebuloso no inverno, se tornou quente. O calçamento de paralelepípedos ficou debaixo da camada de asfalto jogada nas ruas principais da cidade em dias de eleição para governador, tentativa desesperada e inútil de angariar votos na cidade por parte do então candidato Elizeu Rezende.Uma onda avassaladora de “progresso” tomou conta de todos. Era como se fosse necessário desmanchar tudo e fazer outra cidade, e num período de tempo rápido demais! Abriram-se grandes avenidas, dezenas de novos bairros nasceram ( vou tentar enumerar os bairros ou logradouros do Pará onde vivi: Centro, Nossa Senhora das Graças, Alto, Várzea, Avenida, Zambeque, Tabatinga, Automóvel Clube). A população crescia, muitos novos moradores chegavam de toda parte para viver numa cidade tão progressista. Os trilhos da estrada de ferro foram cobertos por grossa camada de alfalto, acabando de vez com a linha de trens por onde tantas vezes viajei para Belo Horizonte, Bom Despacho, Mateus Leme ou para um final de semana na Fazenda dos Guardas. Para nós, que havíamos saído um dia para estudar fora, toda essa mudança foi um choque.

Logo veio a consciência de que alguns prédios deviam ser restaurados e usados pela população por serem referência cultural e histórica: o prédio do Fórum, o Grupo Escolar Torquato de Almeida, o Grupo Escolar Governador Valadares, os Colégios São Francisco,  departamentos feminino e masculino, hoje com outros nomes. A casa da Zezé Castelo Branco, salva por um triz e restaurada, hoje abriga o Museu da cidade. O prédio da antiga Escola de Comércio hoje é Casa de Cultura, a Estação do Pará onde funciona o cinema, a antiga granja Orsini tem sua casa preservada onde funciona a Escola [Municipal] de Artes Sica, o prédio onde funcionou o Asilo das meninas hoje é a FAPAM. As pinturas da velha Matriz foram restauradas e colocadas em novas capelas, os outros objetos são hoje acervo do Museu, assim como muitas doações de famílias da cidade. A Banda de Música renasceu e hoje grupos de Congado se apresentam nas festas do Rosário. Um novo coreto foi construído onde havia o antigo na praça Torquato de Almeida.

As transformações fazem parte da vida. Só não podemos perder nossos rastros, as referências de nossa tragetória pela vida, o que constitui a história de um povo, sua identidade. As referências do passado são de grande importância para dar a personalidade a uma comunidade, sua estrutura básica.

José Efigênio, meu marido, lendo na Gazeta Pará-minense muitas reportagens onde as pessoas lamentavam a perda da antiga Matriz me disse: “Por que não constroem outra Matriz idêntica à que foi desmanchada?” Disse isto com conhecimento de causa pois ele visitou a Espanha e viu igrejas e monumentos totalmente reconstruídos depois de terem sido derrubados por bombardeios nazistas durante a Revolução espanhola.

Então, eu pensei que o melhor presente para o pará-minense, hoje, seria ter a sua velha Matriz de volta. E acredito ser possível através das fotografias existentes e da vontade de todos. Então, mãos à obra!

* Angela Leite Xavier é contadora de histórias, pesquisa histórias regionais, histórias de mulheres e de família. Autora do livro “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto” 

Texto retirado em 19.04.2010 do site http://angelaleitexavier.blogspot.com