por Anastácio Pinto

Texto dedicado à Turma dos meus netos Melissa, Isadora e Mateus, antes de virarem gente grande…

Escute, aqui, menino! Eu sou um pobre e destratado ribeirão. Sou velho aqui, de há muitos séculos. Conheci bugres, os primitivos habitantes destas serranias. Testemunhei a chegada dos primeiros viageiros que por aqui passaram, ou cá vieram aportar. Aventureiros, exploradores, estudiosos, bandidos sanguinários, fugitivos, missionários, a todos eu vi chegar, acolhi e dei ajuda. Matei a sede e a fome de muita gente. Movimentei engenhos. Forneci peixe e transporte durante anos, enquanto era saudável e minhas forças o permitiam. Ouvi o choro de crianças que nasciam; ouvi choro que anunciava mortes. Já fui forte, fui rico, fui bonito. Já fui livre e assim corri, solto, por incontáveis tempos, buscando o mar do meu destino, até que a Cidade se instalou aqui, convencida da minha hospitalidade. Tive ouro, muito ouro, e fiz rica muita gente. Fui aconchego de tropas e de tropeiros. Ouvi cantigas tristes e bonitas de minhas amigas, as diligentes lavadeiras. Fui atração para tantos namorados, incentivei amores. Ouvi muitos segredos que carreguei comigo e escondi no mar. Fui fonte de inspiração à poesia. Fui distração da criançada a quem proporcionei saúde e diversão.

Depois, com o crescimento da Cidade, fui desprezado. Caí no esquecimento. E não ficou só nisso. Fui, aos poucos, definhando e já não consigo correr mais. Vou me arrastando lentamente para a morte, carregando o meu sofrer e o peso da sujeira toda que despejam em mim. Tive roubada a minha liberdade e invadido o meu caminho. Calaram minhas cachoeiras. Sujaram as minhas águas que eram minha alma e propiciavam tanta vida… Tornei-me pobre, sujo, feio, triste, miserável. Já me envergonho de fitar o céu e os seus astros, meus companheiros de nascença. Os mesmos vivos a quem dei sustento já nem suportam o meu cheiro. Mudaram trechos do meu caminho-leito. E cá estou nesta agonia lenta e progressiva.

Difícil compreender tamanho desrespeito e tanta ingratidão. Custoso acreditar pudesse eu um dia me ver assim tão esquecido e maltratado. Custoso, mais ainda, aceitar calado as falsas justificativas em nome do progresso. Lá vez ou outra, recebia ajuda de alguma tempestade que me vinha limpar o leito dos obstáculos colocados em meu caminho antigo pela própria natureza. Hoje, quando chove forte, desembocam também sobre o meu curso as águas que, recolhidas pela pavimentação ou desviadas por obras mal pensadas, fogem ao seu destino natural de penetrar a terra e abastecer seu ventre generoso. E, no final, sou eu o acusado de invasor, de responsável por destruição e mortes. Não tenho voz para expressar minha revolta.

Ouça, menino, não faço este apelo só por mim. Sua pessoa, sua vida também me levam a preocupar. Quando eu chegar ao fim, você também não mais terá futuro. Creio, contudo, na possibilidade de uma recuperação, embora possa isso parecer um sonho exagerado, utopia. Creio em você e nos da sua geração, que ainda alimentam sonhos e arroubos de esperança. Creio na pureza de propósitos de sua mocidade que ainda tem olhos limpos e abertos para o futuro. Quem sabe, lá um dia, possamos nós – eu rejuvenescido, recuperado quase; você, velhinho e feliz – nos encontrarmos e, num demorado abraço de amigos, festejarmos, juntos, a vitória da paciência e da razão sobre a cobiça e o descaso…

Fonte: http://paraensedeminas.blog.terra.com.br/ Acesso em 14.12.2012