por Pedro Moreira*

A História, tal como é narrada nos livros didáticos ou paradidáticos, jamais deveria impor-se como a última verdade. Muitas vezes ela vem mascarada pelas tintas oficiais, distorcida pelos eventuais interesses de grupos ou pela propagação de crenças políticas de certos setores, sem esquecer a poderosa influência de correntes religiosas.

Paralelamente à História pretensamente documentada nos Arquivos e em fontes consagradas, corre a “tradição oral”, detentora de informações repelidas por setores que preferem outra versão – a ficção oficial… Examinemos, no caso especial de Pará de Minas, a Lenda de Manuel Batista, ou Lenda do Patofofo, ou do Patafufo, ou ainda do Patafúfio, esta última a grafia preferida pelo historiador paraense Teófilo de Almeida.

Desde tempos imemoriais, fala-se na existência dessa excêntrica criatura – um provável aventureiro português de baixíssima estatura, rechonchudo, mestre em ostentar um poder econômico bem superior ao verdadeiro. Uma passagem anedótica retrata, à perfeição, sua ânsia de riqueza: sendo proprietário de uma “fazenda”, cuja sede seria o atual casarão-sede do Muspam, o criativo Manuel contava com a ajuda de um único escravo. Com o objetivo de “dourar as aparências” ante o olhar especulativo dos mercadores visitantes, Batista mandava que o escravo trocasse de roupa a cada vez que desfilasse pelo ambiente. Assim, conseguia simular uma riqueza abstrata, falseada e ridícula.

Não há comprovação cartorial da existência dessa novelesca figura. Mas, por que ela não poderia ter existido? O que impediria isso? Aí é que entra a tradição oral, à falta de documentação material dos elementos que teceram as nuances da “lenda do Patafúfio”(fúfio= fofo). Afinal, um incêndio grassou, em 1914, na igreja de Pitanqui, onde se guardavam registros das vilas administradas pela “cidade-mãe”, e deve ter consumido boa parte da documentação histórica referente à Villa do Pará.

Quem sabe se a meio desses alfarrábios não constava, com todas as letras, o nome do fundador do Município?

Respeitemos a “tradição oral”. Por trás dela há sempre um fundo de verdade.

*Pedro Moreira é professor de Português, revisor, consultor, autor dos livros “Casos & Coisas do Pará Antigo”, “Cronicontos”, “O Pássaro e a Dona & Outros Textos” e coautor da coletânea “Pará de Minas, Meu Amor”.

Manuel Batista, de acordo com a tradição oral.
Desenho de autoria de Jerônimo Marcucci Alves. 1992.