por Luiz Viana David

Outro dia, acrescentei um adendo a texto compartilhado pelo amigo Ildeu do sô Chico, mencionando figuras populares do Pará de Minas de algumas décadas passadas. Citei aqueles personagens que vieram à minha cabeça na hora, sem preocupar-me se estava esquecendo ou não de algum deles. Muitos ficaram de fora. Como cada um de nós tem seu doidinho de preferencia, choveu recados lembrando desse ou daquele, cada um com uma história diferente.

Oré e Orão. Eram irmãos e ambos tinham uma dificuldade na fala. Viviam de uma horta que produzia legumes abundantemente o ano inteiro: alface, couve, almeirão, cebolinhas, salsa, agrião,acelga, tudo o que plantavam dava com fartura. E saiam para a rua com grandes cestos vendendo a produção. Nada tinham de bobos, sabiam cobrar pelo produto e davam o troco bem direitinho. As fregueses contumazes vendiam fiado e também abasteciam alguns pequenos mercadinhos da cidade. Também não eram doidos, apenas diferentes no modo de falar. Frequentavam as festas populares, sempre barbeados e com roupas simples, mas limpas. A cidade inteira os conhecia e tinha os dois na conta de pessoas sérias e trabalhadoras. Eu sempre confundi os dois, qual era o Oré, qual era o Orão. Sei que um deles era torcedor fanático do Atlético Mineiro e meio metido a narrador esportivo e não se fazia de rogado quando alguém lhe pedia para narrar um jogo fictício, quase sempre do Guarani, do qual era também torcedor, talvez por residirem no bairro de Lourdes, sede do tricolor patafufense. Na narração o ouvinte quase nunca identificava os nomes dos jogadores, tal o atropelo da dicção, e as jogadas descritas por imaginação tão fértil, quase sempre terminava num grito de gol, tão apaixonado, quanto um gol do Atlético narrado pelo Mário Henrique Caixa. Oré e Orão estão gravados para sempre na minha memória.

Joaquim Doido também não era doido, mas sim, muito esperto. Certamente se aproveitava do conceito que algumas pessoas faziam dele, para aprontar muitas estrepulias e ser perdoado logo depois. Não contestar os que lhe taxavam de doido era uma espécie de “habeas-preventivo”, que lhe permitia aprontar quase tudo. Eu diria que hoje seria considerado um “bon vivant” , um boa-vida, que nunca foi de esquentar muito a cabeça. Veio de Onça de Pitangui para morar na casa de uma irmã, que ao casar se mudou para Pará de Minas. Viviam no bairro de Nossa Senhora das Graças.

Joaquim era respeitador, quando cruzava com uma senhora, saudava-a educadamente, tirando o chapeuzinho ou o boné. As moças não eram incomodadas por ele e as crianças o olhavam com simpatia. De vez em quando aparecia no rachão da turma do Continental, no campinho do buracão, que ficava entre as ruas Boa Vista (atual Coronel Domingos), Artista Benjamim de Oliveira, Bento Ernesto e Capitão João da Cruz. O campo ficava numa terra de ninguém, no fundo dos quintais.

Joaquim apreciava pescar nas águas ainda limpas do Paciência, o que fazia bem cedo ou à tardinha. Pegava peixes em grande quantidade, cansei de vê-lo, caminhando ao lado dos trilhos da ferrovia, às vezes até com duas ou três fieiras de bagres, carás e traíras. Certa vez, a passar próximo a nossa casa, notou minha mãe mexendo no jardim da casa e parou para um dedo de prosa com ela e perguntou assim como não quer nada, se ela gostava de marmelos, a resposta foi sim, pois dona Zinha realmente gostava muito de marmelos. Umas duas horas depois, eis que Joaquim bate palmas no portão e ao ser atendido, entrega a minha mãe uma sacola cheia de marmelos. Ao perguntar ao Joaquim qual a origem das frutas, ele foi sincero na resposta: -colhi lá no quintal do Zé Ferreira, os pés estão carregadinhos, as frutas estão caindo e a dona Nair e os meninos dela não apanham nenhum, está perdendo tudo. Então eu trouxe esses para a senhora. Dona Zinha sabiamente aceitou o presente, mas assim que Joaquim virou na esquina do Morro do Neto, chamou o filho que estava mais perto, no caso eu, e mandou que devolvesse os marmelos à dona Nair e lhe contasse a história.

Joaquim era assim, a cidade inteira era o seu quintal. E era um destemido, ou não ligava para formalidades. José Fereira na época, além de vice-prefeito, era o mais poderoso industrial de Pará de Minas. Maior acionista das fábricas de tecido e dono da Cerâmica Raquel, e Joaquim entrou assim mesmo no quintal dele, que era banhado pelo Paciência. A casa ficava na Presidente Vargas e foi demolida recentemente.

Mas a lenda em torno de Joaquim Doido se fortaleceu quando ele fez uma aposta com o promotor de Justiça, Dr. Ataliba Trindade Pinheiro, de que entraria no quintal da casa dele e se conseguisse, podia levar quantas galinhas quisesse. O promotor então, sabiamente pediu emprestado a um amigo um cão grande e bravo para vigiar o quintal. Os dias foram passando e nada de o Joaquim agir. É que ele estava assuntando a área, um técnico de futebol diria que ele estava fazendo o reconhecimento do gramado, observando os hábitos dos moradores. Descobriu que em determinada noite, dr. Ataliba se juntava a um grupo de amigos para beber e jogar baralho no sitio do advogado e deputado estadual Wilson Guimarães, e que sua esposa aproveitava para participar da reunião das “Filhas de Maria” e os meninos iam ao cinema. Pois foi numa noite dessas que Joaquim pulou o muro da casa do promotor levando consigo uma cadelinha no cio. Enquanto o cachorrão se divertia com ela, o bom Joaquim fez a colheita, e levou todas as galinhas com ele. No outro dia ainda voltou para buscar a cachorrinha, que desde então, e até morrer, foi sempre vista com ele, puxada por uma cordinha.

No incio da década de 1960 Joaquim resolveu se casar, com uma antiga namorada, lá da Onça do Pitangui. Seus padrinhos de casamento foram o rico comerciante José Porfirio de Oliveira e dona Dagmar sua esposa. José Porfirio naquele ano seria candidato a prefeito pela primeira vez. Lembro-me do Joaquim, casado, morando em uma casinha na Rua Castelo Branco, entre as ruas Capitão Teixeira e Capitão João da Cruz, bem ao lado de um simpático bangalô, onde vivia o produtor rural Erci Pereira e sua família. No alto da fachada do bangalô para aumentar o charme, as palavras “Vila Zélia”, chamavam a atenção.

Depois, não tive mais noticias de Joaquim. Fui para Belo Horizonte. Não sei como foi e quando se deu a morte dele, nem se deixou filhos. Mas lembranças, sabemos que ele deixou. E muitas. Com certeza está no Reino de Deus, ele, e os irmãos Oré e Orão. Não foi o próprio Jesus Cristo que garantiu: “Bem aventurados os simples e os humildes, pois eles terão o Reino dos Céus”?

Fonte: https://www.facebook.com/#!/luiz.vianadavid1