Lóren Graziela Carneiro Lima*

Aconteceu em agosto de 2012 em Brasília, o Seminário Internacional “Herança, Identidade, Educação e Cultura: gestão dos sítios históricos ligados ao tráfico negreiro e à escravidão”, em que estiveram presentes estudiosos e autoridades da cultura negra de mais de quinze países. O Seminário faz parte do projeto “A Rota do Escravo”, financiado pela Unesco e existe desde 1994. Tem como objetivo quebrar o silêncio sobre o tráfico de escravos e contribuir para uma melhor compreensão dessa tragédia histórica. É um dos objetivos do projeto promover o reconhecimento da verdadeira história que envolve a escravidão, por meio da descoberta de locais em que a memória deste fato histórico se faça presente e que os brasileiros saibam que a construção do Brasil se deu por meio do sacrifício de muitas vidas.

Ao pensarmos a escravidão, devemos nos conscientizar de que ela não aconteceu somente nos grandes engenhos do nordeste açucareiro,  nas minas de ouro ou nos grandes cafezais. Ela esteve presente em todo o País por mais de trezentos e cinquenta anos. Aproximadamente 5 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil num período de três séculos (1550-1856). “Vindos mais tarde a integrar-se na etnia brasileira, os negros, encontrando já constituída aquela protocélula luso-tupi, tiveram de nela aprender a viver” (Ribeiro, 1997, p.114). Durante a escravidão, os escravos migraram por todo o território brasileiro se fazendo presentes nos arraiais e vilas da colônia e do Império exercendo as mais diversas atividades, manifestando sua cultura e lutando contra o sistema vigente.

E Pará de Minas, entra na Rota do Escravo? Justamente no período em que o Seminário supracitado acontecia em Brasília, encontrei no Arquivo Público de Pará de Minas um documento que nos confirma a presença de escravos e manifestações de resistência por aqui. Trata-se de um Auto de Verificação de Identidade, datado de 1882.

Nesse processo foi possível conhecer a história dos escravos Bento e Angélica. Bento, filho de David Congo e Maria Conga, nasceu na fazenda Três Barras em Santana de São João Acima (atual cidade de Itaúna).  Bento e Angélica pertenciam a um mesmo dono. Com a morte do proprietário José Bernardes de Carvalho, ambos ficaram com seu filho Antônio Bernardes de Carvalho que os vendeu para o senhor Joaquim das Chagas de Oliveira. Os escravos ficaram com Joaquim durante cinco meses. Quando perceberam a pretensão do dono de vendê-los para alguém da localidade Matta do Rio, resolveram  fugir porque não queriam ir. Nessa ocasião tinham dois filhos que não participaram da fuga e Angélica esperava mais uma criança. A fuga foi bem sucedida. Ficaram doze anos aquilombados em um local chamado “toca” que segundo Angélica em seu depoimento se localizava entre o arraial de Santana e Garcias. Durante o tempo que estiveram aquilombados a criança de Angélica morreu de picada de cobra. Quando Angélica foi indagada sobre a localidade do quilombo “a toca” ela alega não saber onde fica [FCAM 29 Div(11)].

A presença africana na região de Pará de Minas e sua contribuição cultural e econômica  torna-se inegável diante dessa documentação. Aliás, o Brasil se fez como nação com a inteira contribuição da população negra.

O negro teve uma importância crucial, tanto por sua presença como a massa trabalhadora que produziu quase tudo que aqui se fez, como porsua introdução sorrateira mas tenaz e continuada, que remarcou o amálgama racial e cultural brasileiro com suas cores mais fortes (Ribeiro,1997,p.114).

O negro se faz presente em diversos espaços em Pará de Minas: no mercado de trabalho, nas escolas, em manifestações culturais… Basta olharmos o entorno para identificarmos os descendentes de muitos “Bentos e Angélicas” que por aqui viveram. Porém, a realidade nos coloca a seguinte questão: negros e brancos ocupam o mesmo lugar na nossa sociedade?

Fontes:
– Arquivo Público de Pará de Minas, FCAM-29-DIV(11)
– RIBEIRO, Darcy. 1997. O Povo Brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2ª ed.
– www.palmares.gov.br acesso em 3/09/2012

*Lóren Graziela Carneiro Lima, é graduada em História pela Universidade de Itaúna/MG,  pós-graduada em História e Cultura de Minas Gerais pela Puc/MG, possui o Curso de Aperfeiçoamento em História da África e Cultura Afro-brasileira pela UFMG, é coordenadora do setor educativo do Museu Histórico de Pará de Minas.