Maria da Graça Menezes Mourão
                                                                                       Especialista em História e Cultura de Minas Gerais
                                                                                       Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

                                  O Cônego Dr. José Marciano Gomes Baptista – vigário de Curvelo (1840) e neto do Patafufo – registrou que seu avô, o alferes Manuel Gomes Baptista era paulista de origem, estabelecido em Lavras do Funil e descendente de índio caiapó. Através do historiador do Instituto Histórico Geográfico de Minas Gerais, Jorge Cunha Pereira, residente no Rio de Janeiro, chegamos até ao Dr. Wilson Baptista, 92 anos, advogado, neto de José Marciano Gomes Baptista, o “Pirula”, apelido daquele que foi um dos primeiros boticários paraenses; bisneto do Cônego Dr. José Marciano Gomes Baptista, portanto, tetraneto do Alferes Manuel Gomes Baptista, o Patafufo.
                                 Dr.Wilson Baptista relatou-nos que sabia por tradição oral de sua família que os Gomes Baptista tinham laços com certo Manuel Gomes Baptista, filho de português, parente bem próximo de João Gomes Baptista, o mestre talhador e mestre de Aleijadinho. O tal se perdera da bandeira de um Taques e que convivendo com os caiapós, casara-se com uma índia da tribo. Em uma festa de 50 anos de formatura entre os colegas, o desembargador Hélio Costa confirmou o parentesco entre eles, primos, por parte do “Doutor Mal Acabado”, forma que em família se referiam a Antônio Gomes Baptista. Era do conhecimento que este apelido surgira após um gracejo quanto à sua pessoa na colação de grau de Medicina em Coimbra, o que o levou a retirar-se sem receber o devido diploma. Hélio Costa relatou-lhe que o filho do Patafufo era enorme, espadaúdo, de cor amarelada e parda, de olhos puxados como índio caiapó, conhecido como “Antônio Grande” em toda Sabará.
                               A respeito da descendência caiapó, o Dr. Wilson Baptista falou sobre uma mancha de nascença, roxa na espinha dorsal encontrada em sua família, em netos, bem como seu oitavo filho que muito lembra um índio caiapó. O médico de sua família, Dr. Olinto Orsini de Castro explicou tratar-se de mancha malaia, de raça indígena ou amarela, conhecida como mongólica. A menção lembra-nos Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala” descrevendo que todo brasileiro traz a pinta do indígena ou do negro: há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil.
                            Quanto ao pai do Alferes Manuel Gomes Baptista ter-se perdido realmente da bandeira de um Taques é possível corroborar esta afirmação. Tanto o bandeirante Pedro Taques, quanto José e Antônio Pompeu Taques estiveram no roteiro comum por onde passavam os caiapós em seu nomadismo. Em determinados períodos do ano estes índios passando pelo Rio Grande, ou seja, Lavras do Funil, transitavam desde o Rio Pardo em São Paulo até a Mata da Corda na Serra da Marcela, às margens do Rio Abaeté, onde foi encontrado o famoso diamante pelo pai e filho Gomes Baptista. Quanto à bandeira, no final do século XVII, muito antes que a região do Pitangui fosse ao descoberto, Pedro Taques e Joseph Rodrigues Betim estiveram passando, pelo Jequitinhonha andando vinte e sete dias à beira da Serra que se diz ser dos Aimorés (RAPM, Ano II, p.34). É sabido também que na mesma época, após bandeirar-se pela região, José Pompeu Taques estabeleceu-se no funil ou passagem do Rio Grande, onde foram descobertas as Lavras da Grandeza, daí o nome Lavras do Funil, cuja provisão foi concedida a ele em 20.12.1701(RAPM, 1897, p. 471). Todavia, a bandeira que mais corrobora a presença do português Manuel Gomes é a de Antônio Pompeu Taques, cujos componentes Bartolomeu Bueno de Siqueira, Manuel de Borba Gato e Mateus Leme Barbosa fizeram a picada para o Centro-Oeste, trilhando  o Caminho do Pitangui, à época que o Governador Artur Sá e Menezes encontrava-se nas Minas. Segundo Viana Passos, encontrava-se junto com eles, um Manuel Gomes, no Sabará (Vianna Passos. Em torno da História de Sabará. V. II. Imprensa Oficial. BH. 1942, p.93-95). 
                             A presença do Alferes Manuel Gomes Baptista e seu pai em Lavras do Funil pode ser corroborada através de documentação primária em arquivos de Lavras e Carrancas. O alferes mameluco caiapó se casou com Inês Clara de Jesus ou da Rocha. Em 1775, sua primeira filha Ana foi batizada na Freguesia de Carrancas da qual fazia parte o povoado de Lavras do Funil, sendo padrinhos Francisco de Ávila Fagundes, um dos povoadores e proprietário da capela “pública” de Carrancas e Ana Gomes da Rocha, a avó da menina (APCarrancas, 1775).
                            A família permaneceu em Lavras do Funil, enquanto o alferes servia no Terço de Ordenanças em Mariana. Posteriormente, ao adquirir terras às margens do Ribeirão Paciência, no Caminho do Pitangui, vendeu sua propriedade para o Capitão Antônio Pinto de Miranda, cuja moradia foi mencionada em seu inventário em 3.12.1795: […] casas no fundo do dito arraial cobertas em parte de telha com partes de capim, arruinadas, que foram de Manuel Gomes com seus fundos (MRSJDR- Caixa 161-1795).
                           Ao trazer a família para as margens do Ribeirão Paciência, o alferes estabeleceu-se com uma estalagem oferecendo pouso e alimentação aos que passavam pelo Caminho do Pitangui, o que proporcionou o surgimento do arraial que levou o seu nome, hoje Pará de Minas. Suas mudanças de endereço o aproximavam cada vez mais da trajetória que os caiapós faziam, sendo costume entre eles contarem uma lenda sobre uma grande mina de diamantes na direção da Mata da Corda, localizada no Rio Abaeté, onde desde 1726 já havia explorações. Conhecida entre os bandeirantes, essa fábula deu origem ao Roteiro do Cururu, nome de um mosquito que proliferava no pântano, onde surgiu a cidade de Pihum-i. Do Ribeirão Paciência ao Abaeté, para chegar à Mata da Corda era um pulo.
                          Memorialistas chegam a afirmar que o Alferes Manuel Gomes Baptista fazia parte do esquema que contrabandeava diamantes para a Antuérpia na Holanda, muito antes que a Coroa Portuguesa tivesse conhecimento da existência do mineral. Sobre tal assunto, o historiador Carlos Cunha Corrêa, que nasceu na região do Abaeté, garantiu que ele já vinha visitando aquela região muito antes de encontrar o famoso diamante do Abaeté. Após desfiar vários argumentos, ele tem em conclusão que foi bem antes que o alferes mameluco entrou para zona do Indaiá, antes talvez de ser estabelecida ali a primeira extração régia em 1791 e criado o Quartel do destacamento sob o comando de José Dias Bicalho (Carlos Cunha Corrêa.- Serra da Saudade–Imprensa Oficial. SP. 1948, p.190).
                          Esta afirmação ganha sentido quando se lê atenciosamente a história a nós legada por José Augusto Correa de Miranda. Segundo ele, era tradicional chamar-se Manuel Baptista que por suas pavonices e ostentações, ganhara o apelido de Patofofo, o qual passou com pouca alteração ao arraial […] Patafufo.
                         É bom questionar quais seriam essas pavonices do Alferes Manuel Gomes Baptista.  E suas ostentações? Que indumentária, enfeites e demais quinquilharias da época eram usados pelo mameluco caiapó na hora do seu exercício militar como alferes do Terço de Ordenança da Companhia de Pitangui ou a passeio pelo arraial que muito antes de sua morte era conhecido pelo seu próprio nome?  É nossa proposição que o seu cavalo Rosilho fosse fufo, isto é, ajaezado, considerando que a denominação corresponde ao modo mouro pelo qual se aparatava o animal para a cavalhada, costume bem em voga em Mariana, berço mineiro dessa tradição ibérica no Brasil.
                                                           Lá vem o Fufo! Lá vem o Patá e o Fufo! Olha o Patafufo! 


      Cavalo enfeitado à moda Fufo. Carnaval de Bonfim/MG. Figurante João Paulo.

                                                          
       Cavalos fufos no Carnaval à cavalo de Bonfim.Gentileza: Secretaria de Cultura.
                                                                       
                                     Nos festejos do Triunfo Eucarístico em 1733, para comemorar o traslado do Santíssimo Sacramento da Igreja do Rosário para a Igreja do Pilar em Vila Rica, as cavalhadas tiveram cavaleiros ricamente vestidos e montados em briosos cavalos bem ajaezados. Estes eram suntuosamente transformados na peça ornamental do desfile, chamando atenção não só pela sua cavalgadura, mas pelo aparato de seus enfeites, motivo de maior atração, quando homem e cavalo se transformavam em uma só figura.
                         A cavalhada era utilizada como exercício militar da Companhia de Cavalaria e, portanto, também dos Terços de Ordenança. Quando nascia um príncipe ou outro motivo de regozijo, era esta a forma com que a população se manifestava. Durante os festejos do casamento de Dom Pedro de Alcântara com a princesa D. Leopoldina, houve cavalhadas e apresentações dos cavaleiros. Todos estavam montados em soberbos cavalos ricamente ajaezados e satisfizeram à curiosidade pública com várias escaramuças e justas perfeitamente desempenhadas (Gazeta do Rio, Sábado, 24.10.1818, col. II).

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