por Anastácio Pinto

Sebastião Mendes, Tião da Mariinha, Tião Peito de Aço, Tião Padeiro… Há quem o prefira Tião do Cinema. A legenda também se encaixa ao retratado: magro, alto, brincalhão, fez-se amigo do Pará inteiro.

Monumento da simplicidade, soube o Tião esbanjar simpatia e fineza. Metódico e minucioso cultivou, entre outros, o hábito de registrar, por escrito, os acontecimentos do seu dia a dia.

Dos tempos de administrador e dono do Cine Vitória, deixou arrolados os filmes ali exibidos, registros, hoje, sob a guarda do MUSPAM, por doação, obra e graça de seu filho, Licinho. De tais registros verifica-se, além do nome de cada “fita” exibida, também o número de exibições, bem assim a data de cada uma e o valor arrecadado a cada sessão. E, ao final de cada mês, apurado o movimento: “Ganhei $$$”, ou “Prejuízo de $$$”.
Os registros do Tião não se limitam, porém, à movimentação do finado Cine Vitória. Paralelamente, outras anotações não menos cinematográficas ali se verificam em homenagem ao melhor humor.

Assim, lançamentos do tipo:

“Comprei linguiça Dr. Mauro 75,00 – 05/08/52”
“Pg tijolos José Odorico 225,00 – 05/08/52”
“Uma cx. Agulha e preparado para pulga – Comprei Dr. Joaquim e R. Nonato 60,00 – 16/09/52”.
Nos dias 23 e 24 de maio de 1957, não houve exibição de filmes no Vitória, ali consignado:
“Teatro – Morre um gato na China – José Campos”.
As comemorações do centenário da Cidade provocaram queda de bilheteria no Cine Vitória: “Centenário da Cidade de 12 a 20 de 7bro de 1959”.
Alguns lançamentos mostram-se mais evasivos:
“julho 05 dia q. pariu vaca q. foi do Wilson Amarante”, ou “1959 dia 9 de setembro pariu a vaca fumaça 1 bezerro branco”.
De volta ao cinema, um registro de atividades do seu único concorrente, o dono do cine Imperial:
“O Tadinho inaugurou cinemascope em 31 de março de 1956 com o filme da W. Brothers – A morte ronda o espetáculo” ou “O Tadinho começou a cobrar 6,00 1º de novembro=956”.
Os alunos internos do antigo Ginásio São Francisco também frequentavam o cine Vitória:
“959 – agosto – 9 – Entreguei ao frei Canarinho 400 entradas de 5,00”.
Ocorrência um pouco destoante mais à frente:
“Mês em que operei minhas amígdalas agosto de 1960”…
A religiosidade patafufa também está nas anotações do Tião, pois, em maio de 1961, o cinema funcionou até dia 24:
“O restante do mês o cinema ficou fechado por causa das missões em Pará”.
Como amante do futebol, outra anotação talvez possa interessar aos cruzeirenses:
“Novembro 1965 – dia 21 Show de Aldair Pinto – R. Guarani”.
O Nem Barbeiro – fumante inveterado que acendia um cigarro na guimba do outro – que também se fez eletrotécnico, eletricista, bombeiro hidráulico, chaveiro e reparador de fogões, marca presença nas anotações do Tião, “cabineiro” e “operador” que também foi do cine Vitória:
“Nem da Nhanhá começou trabalhar no dia 5 de 1.963”.
Em mais uma escapadela, relata o Tião a aquisição de um fogão feita ao pai do hoje deputado Antônio Júlio:
“Fogão – José Mendes – 24 prestações de 850,00”.
E, nessa deliciosa salada montada pelo Tião, não poderia faltar a meteorologia:
“1961 – Outubro – 12 – dia q. começou chover”.
“Choveu dia 30 de dezembro de 61”.
“Choveu bem dia 28 abril 64”.
“Choveu 1 pouco 28 de setembro 64”. “Choveu bastante janeiro 66”.

Pena não se acharem completas as anotações do Tião. Segundo Licinho, parte delas extraviou-se. Os salvados, porém, são bastantes para lhes garantir o valor documental e artístico. Fragmentos, caquinhos de azulejos multicoloridos ajuntados num belo painel do quotidiano. Poesia pura nos deixou o Tião do Cinema a partir do seu ramerrão diário…

Fonte: http://paraensedeminas.blog.terra.com.br/ acesso em 11.02.2012

O CINEMA DO TIÃO

Conversa puxa conversa e, quando se dá fé, o assunto se alastrou que nem fogo na macega. Fui falar no Tião do cinema e a prosa acabou rendendo. Tudo, naturalmente, pelo bom conceito da pessoa lembrada. E muitos foram os telefonemas e as abordagens na rua, arrematando o escrevinhador por se comprometer à delicada aventura de revisitar o saudoso Cine Vitória. Ainda que somente à guisa de provocar manifestação mais abalizada de alguém mais sintonizado com a sua história.

O prédio destacava-se pelo seu desenho diferenciado, mostrando a larga porta de entrada ladeada pelas bilheterias e, ainda, pelos dois portões de saída.

Vencidos uns poucos degraus, partindo-se da calçada, dava-se com o pequeno saguão, ou vestíbulo que uma pesada cortina separava da sala de projeção. Nesse primeiro espaço interno, logo à entrada, um bem elaborado quadro mural forrado de feltro expunha os “cartazes” da “fita” a ser exibida e cujo título já se achava anunciado em grandes letras metálicas distribuídas ao alto da fachada.

Partindo do vestíbulo, uma estreita escada conduzia a uma galeria superior onde, além da hermética cabina de projeção, achavam-se distribuídas umas poucas dezenas de cadeiras que complementavam a capacidade do cinema, garantindo melhor bilheteria em dias de maior movimento. A bem da verdade, a galeria, que a molecada da época apelidava de “poleiro”, não era muito frequentada. Dela usavam, regularmente, alguns frequentadores mais assíduos e sistemáticos em busca de maior conforto, ou alguns casais de namorados mais “pra frentex”, conforme expressão que designava os mais afoitos por intimidades. Mulher desacompanhada, ali, somente aquelas mais desavisadas. Ou mais visadas.

Por muito tempo vigorou no cine Vitória um horário especial, com exibições iniciadas mais cedo, às sete da noite, para maior conforto e comodidade do público feminino. Era a famosa sessão das moças, das terças-feiras. Prestigiava ela, notadamente, a moçada que trabalhava nas fábricas de tecidos e que tinha horários mais rígidos a cumprir. E eram tantas as moças, e tão bonitas em sua maioria, que a sessão das moças passou a sofrer a concorrência de muitos galãs improvisados em número sempre crescente, na busca de conquistas românticas. Naquelas ocasiões, filas enormes se formavam defronte o cinema na frenética procura pelos “ingressos”. Muitos foram os namoros ali iniciados e poucos não foram os casamentos que tiveram raízes naquelas sessões.

Não se prestava o Vitória apenas à exibição de filmes, sua atividade principal. Palestras e conferências ali se realizavam. Peças teatrais ali foram levadas, marcando época e revelando verdadeiros talentos da Terra. Também ali tiveram lugar muitos bailes de carnaval, transformados hoje em saudades na lembrança de patafufos sessentões. O velho cine teatro recebeu também artistas nacional e internacionalmente consagrados: ali se apresentaram Caubi Peixoto, Emilinha Borba, Gregório Barrios e muitos outros. Sem esquecer o cômico Delmário que, por diversas vezes, muito fez rir o povo de Pará de Minas.

Pelo cine teatro Vitória, durante muitos anos, passou considerável parcela da nossa população. E a velha casa de espetáculos ficou, induvidosamente, tatuada na alma da Cidade.

Fato singular ocorreu durante uma exibição no Vitória: passava uma fita de suspense. Na cena, a mocinha se via perdidamente ameaçada pelo vilão da história. A platéia atenta e silenciosa parecia ter paralisada a própria respiração. Foi quando, lá do “poleiro”, se ouviu uma voz aguda, forte e alta: “ – eu, Maria Madalena da Purificação, fazer isto ? é nunca …”

Fonte:http://paraensedeminas.blog.terra.com.br/ acesso em 20.02.2012