Antônio de Abreu e Silva – Tonico Abreu (15/08/1900-05/03/1989)

                                                                                                                  Por Silvino (Vininho) Abreu*  

                                                                          

                                             “Por vocês, sou capaz de mergulhar no fundo do mar, lutar contra tubarões, para procurar uma agulha”. Era assim que o Sr. Tonico dizia para seus filhos, quando criancinhas, deitadas ao seu lado, fazendo de seus braços travesseiros, depois de lhes dar mamadeiras. Após o café da manhã, ele levava as crianças para jogar milho para as galinhas e recolher os ovos. Depois do jantar, o programa era ir ao Posto Telefônico fazer uma complicada ligação interurbana para a filha mais velha, que estudava interna em um colégio de Belo Horizonte. Certa vez, construiu um grande viveiro de passarinhos, para seu filho Antônio. Sempre que voltava de Belo Horizonte, trazia caixinhas de passas Sun Maid e maçãs. Com estas pequenas atenções, demonstrava grande carinho pelos filhos.
                                           Gostava de conversar com os filhos e perguntava o que queriam ser, quando crescessem. Estimulou-os a estudar e fazer curso superior. Ficava eufórico com a aprovação deles no vestibular, compartilhando da alegria da aprovação, presenteava com um relógio Omega. Na formatura, fazia questão do anel de grau.  Prometeu e deu um relógio Patek Philip para o primeiro neto que entrasse para a universidade. Não permitia que seus filhos brincassem de “mãos ao alto”, com armas de brinquedo, tão comuns na época, nem que os filhos já adultos fumassem em sua presença. Colheu os frutos. Orgulhava-se de sua filha mais velha ser a primeira mulher de Pará de Minas a se formar em Direito.
                                          Não queria ver seus filhos empregados, mesmo que fossem os melhores empregos. Estimulava-os a serem profissionais liberais. Não gostava que passassem temporadas em fazendas ou pequenos povoados, por temer que pegassem gosto. Incentivava-os a buscarem as grandes cidades.
                                         Sempre que oportuno, envolveu-se, participou e ajudou na solução de problemas dos filhos, genros, netos, irmãos e sobrinhos. Nunca se omitiu. Austero, enérgico e econômico, exceto na mesa.
                                         De moral conservadora, não era daqueles que cobram moral das outras pessoas. Repugnava arma de fogo, jogos de azar, cigarros e bebidas destiladas, como whisky e cachaça.
                                         A seu convite, uma pobre senhora, a Maria Coleta, sentava-se à mesa de sua casa, para participar do almoço dominical da família. Comemorava os aniversários com missa e almoço com dourado assado, acompanhado do vinho Grandjó.
Gostava das pessoas, da vida e de viver. Orgulhava-se da família e de sua vida.
                                        Seu início de vida, como todo início, não foi fácil, apesar da boa situação financeira de seus pais. Na escola primária em Maravilhas, apanhou de palmatória e de vara de marmelo do seu professor, simplesmente por não conseguir pronunciar corretamente a palavra “cordilheira”. Dizia “cordieira”. Mas, sua mãe indignou-se com a surra e reagiu. Conseguiu que o professor fosse desligado da escola. E ele tinha orgulho disso. Usou pela primeira vez, aos 14 anos, um par de calçado – botinas, como era costume na época – quando se mudou de Maravilhas para Pará de Minas, em 1914.
                                       Começou a trabalhar no primeiro comércio atacadista da região: – o armazém Irmãos Abreu, fundado pelo seu pai. Negociava com cereais, açúcar, sal, cerveja Brahma, cimento importado em barricas etc. O movimento de carros de bois, puxados por quatro juntas, nas Ruas Francisco Sales e Dr. Higino era grande. Para entregar as mercadorias, carroças puxadas por três burros agregaram-se ao armazém atacadista. Logo, a firma comprou um caminhão, o que era a novidade tecnológica da época, para ir diariamente a Belo Horizonte. 
                                       Para desenvolver o negócio e dar oportunidade aos irmãos mais novos, deixou o armazém atacadista e criou seu próprio negócio: – uma fábrica de manteiga, com a marca Maravilhas, em homenagem à sua cidade natal. Utilizava desnatadeiras importadas, laboratório etc. A produção era vendida para Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outras cidades. Os pecuaristas que não tinham o que fazer com o excesso de produção de leite, agora podiam vendê-lo e melhorar suas condições de vida. Este empreendimento tinha significativo alcance econômico e social para os pecuaristas e trabalhadores da região. Entretanto, o governo do Estado (cujo governador era da cidade) montou uma “Fábrica Escola” de laticínios, que mais tarde, se transformou na Cooperativa de Leite, a Coopará. Diante da concorrência do próprio Estado, o Sr. Tonico teve que mudar de ramo: – partiu para a torrefação de café e depois, para o beneficiamento de algodão, para suprir as indústrias têxteis da região. Neste novo negócio, também foi bem sucedido. Os produtores rurais foram incentivados a plantar algodão, financiados por ele próprio e com garantia de compra da produção pelo preço de cotação da Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Tornaram-se parceiros do negócio e ficaram satisfeitos. Outra vez, o governo do Estado montou na cidade, a Usina Inconfidência, com a mesma atividade operacional do negócio do Sr. Tonico. Desta vez, ele desativou suas instalações de beneficiamento do algodão, vendeu as máquinas, mas, continuou no comércio deste produto, tornando-se o principal usuário dos serviços da Usina Inconfidência. Não é a toa que ele não gostava de governo e não queria que seus filhos fossem funcionários públicos. Por ironia do destino, anos mais tarde, um de seus filhos casou-se com uma sobrinha do governador em cuja gestão ocorreu o fechamento de suas precursoras usinas de laticínios e de beneficiamento de algodão.
                                     Na varanda de sua casa, recebia fazendeiros vindo da região de Pompeu, Martinho Campos, Abaeté e Morada Nova, com quem mantinha longas conversas sobre laços de parentescos, onde todo mundo era descendente de dona Joaquina do Pompeu. Enquanto acariciava a cabeça de seu filho caçula, combinava financiar a plantação de algodão e comprar a colheita, pelo valor de cotação da Bolsa de Mercadorias. E convidava o fazendeiro para almoçar em sua casa.
                                    Com o negócio de algodão, criou seus filhos, formou-os advogada, médico e engenheiro, o que não era tão comum na década de 1950 e 1960.  Construiu doze casas na Rua Feliciano de Abreu, perfazendo 25 casas no centro de Pará de Minas. Converteu alguns depósitos de algodão em casas. Gerou muitos empregos diretos não só nos seus empreendimentos industriais, na construção das 25 casas e de dois prédios, mas principalmente, para limpar o algodão, segregando a ganga. Esta última tarefa era feita por dezenas de mulheres que passavam o dia, sentadas e cantando em coro, enquanto faziam seu trabalho. Eram as catadeiras de algodão. Além disso, gerou uma quantidade muito maior de empregos indiretos, na lavoura do algodão e no seu beneficiamento.
                                    Era enérgico e temperamental. Lutava pelos seus direitos. Por pequenas causas, travou grandes embates com a Prefeitura e com a Câmara Municipal, por questões tais como IPTU.
                                   No final da década de 1950, deixou de negociar em algodão. Com o seu capital, construiu os dois prédios em Belo Horizonte. Em 1960, cinco de seus seis filhos moravam nesta cidade. Para acompanhar os filhos, mudou-se também, para a capital. E com o passar do tempo, vendeu seus 25 imóveis em Pará de Minas. Programas de governo inviabilizaram as duas atividades industriais que empreendeu na sua vida. Por isso, não gostava de governo. Não poderia confiar e depender da previdência criada pelo governo. Entendia que ele próprio deveria constituir sua previdência e não depender das políticas públicas para o setor, do humor dos governantes e de que não haveria déficits ou desvios de fundos previdenciários para atender outros anseios dos governantes.
Sua motivação para fazer seu “pé de meia” visava também e principalmente, garantir o futuro de um se seus filhos, portador de necessidades especiais. Não existiam as leis que hoje favorecem estas pessoas, até nos empregos. Privilegiou este filho, doando-lhe um prédio de apartamentos e uma loja, em BH. Assim, determinado a economizar, não se importava de ser taxado de pão duro e construiu patrimônio, que na velhice, propiciou-lhe tranqüilidade, permitindo viver de rendimentos de aluguéis, apoiar seus filhos e assegurar condições de vida satisfatórias para sua esposa. 
                                   Sensível aos problemas dos outros, especialmente dos jovens, aos quais ajudou a arranjar emprego, principalmente como bancários – o que era um bom emprego – ou a encaminhar-se em negócios próprios. Um empresário bem sucedido dizia: – “Ele me ensinou a trabalhar. Foi fundamental ele dizer a mim, que como empresário, teria que lutar sozinho na vida. Que não deveria esperar ajuda de ninguém nos meus negócios”. Por isso, até hoje, mais de cinqüenta anos depois, ainda encontramos pessoas que comentam serem gratas a ele pela oportunidade de trabalho ou por terem sido diretamente ajudadas ou orientadas por ele. Uma pessoa, em um momento festivo de sua vida, encaminhou uma carta comovida, em agradecimento por que teria sido “salva”, na infância, pelo leite recebido do Sr. Tonico.
                                  Ao alugar suas casas para jovens casais que estavam começando a vida, costumava isentar o pagamento do primeiro mês. Para um casal que teve maiores dificuldades financeiras, ele deixou de cobrar aluguel por dois anos e meio e ainda subsidiava as taxas de condomínio.
                                  Lutou pela instalação das agências dos Bancos da Lavoura (hoje, Real), Comércio e Indústria, Nacional e Brasil na cidade. Colaborou economicamente na construção do Colégio São Francisco, Departamento Feminino. Concedeu bolsas de “vocação sacerdotal”, para que Maravilhas pudesse ter um padre.
                                  Viveu a infância em Maravilhas, 46 anos de vida produtiva em Pará de Minas, onde quis ser enterrado, e a terceira idade, viveu em Belo Horizonte, junto à esposa e filhos. Não temia a morte. Encarava-a com naturalidade. Ao sofrer doenças cardio-pulmonares, encarou-as com serenidade e tranqüilidade, sem temor. Recebeu de sua esposa, dona Vera, o apoio necessário para as suas realizações, pela sua abnegação e total dedicação ao lar. Dona Vera ajudava ainda a fazer as longas e intermináveis contas da Fábrica de Manteiga. Ele dizia: “Se viesse 300 vezes ao mundo, 300 vezes se casaria de novo com ela”. Hoje (05/03/2009) estamos rezando uma missa por sua alma, marcando os vinte anos que ele partiu para o andar de cima. E ainda, não retornou para casar, mais uma das trezentas vezes que prometeu, com a dona Vera, que lhe sobrevive. Deve estar no fundo do mar, lutando contra os tubarões, à procura de uma agulha para um dos seus tataranetos.

 DADOS DE ANTÔNIO DE ABREU E SILVA
Nasceu em 15/08/1900. Era filho de Feliciano de Abreu e Silva e de Christina de Castro Abreu e Silva. Acompanhando a família, mudou-se em 19/03/1914 para Pará de Minas e em 19/03/1960, para Belo Horizonte..
Casou-se em 03/10/1929, com Vera de Abreu e Silva, filha do Major Silvino Antônio da Silva e Maria Luiza Leite Praça.
Faleceu em 05/03/1989, tendo sido enterrado em Pará de Minas.

DESCENDENTES:
F1- MARIA ANTONIETA
DE ABREU SIFFERT, bacharel em direito, c.c. Nelson Fontes Siffert, juiz de direito no Rio de Janeiro.
Filhos: 
N1∙Vera Lourdes Abreu Siffert, c.c David Dulcetti (Filhos: Daniele, David, Bruno – Daniele casada com Raul, pais de Pedro Henrique e João)
N2∙José Antônio Abreu Siffert, fiscal do Estado de MG, c.c Rogéria
N3∙Nelson Fontes Siffert Filho, economista do BNDES, c.c Germana Falcone
N4∙Heloisa Abreu Sifffert, designer, c.c Maurício Mesquita Moreira, Economista do BID (Filhos: Diego e Rafael)
N5∙Paulo de Abreu Siffert, advogado c.c Nilza, agrônoma

F2- ANTÔNIO DE ABREU FILHO (17/06/1933-02/07/1979)

F3- SILVIA ABREU DE SÃO PEDRO, mãe de:
N6 ∙Weber Leite de Magalhães Pinto Filho, juiz do trabalho
N7∙Henrique Abreu Magalhães Pinto, engenheiro civil, c.c Vanessa Lamego, dentista (Filhos: Mariana e Izabela)
N8∙Evelyn Abreu Magalhães Pinto, engenheira civil, c.c Renato Rodrigues Almeida, engenheiro  (Filha: Yasmin)
N9∙Ana Paula Abreu Magalhães Pinto.

F4- FELICIANO DE ABREU E SILVA, médico, c.c: Consuelo Bizzotto Soares, psicóloga. Pai de:
N10∙Eliane de Castro Abreu e Silva, bacharel em direito, viúva de Arlindo Borges Silvério
N11∙Sandoval de Castro Abreu e Silva, economista c.c Maria José Botelho Alves, professora (Filhos: Mariana e Henrique)
N12∙Lorena de Castro Abreu e Silva, advogada, c.c Luigi Brunelli  (Filhos: Ferdinando e Bianca)
N13∙Cristina Castro de Abreu, professora c.c Mauro Raymundo, engenheiro (Filhos: Gabriela e André  )
N14∙Liliane de Castro Abreu e Silva c.c Gustavo Mendes.

F5- AMÉLIA, falecida com um ano e meio.

F6- MARIA LUIZA DE ABREU MESSEDER, casada com o engenheiro Ronaldo Antônio Messeder. Filhos:
N15∙Rosângela de Abreu Messeder, administradora
N16∙Ronaldo Antônio Messeder Filho, juiz do trabalho

F7- SILVINO CARLOS DE ABREU, engenheiro químico, casado com a advogada Heloiza Saraiva de Abreu. Filhos:
N17∙Simone Saraiva de Abreu, juíza de direito c.c Rodrigo Cunha Abras, comerciante (Filhos: Carolina e Thiago)
N18∙Vanessa Saraiva de Abreu, advogada c.c Roberto Magno Rosa Pereira, administrador (Filha: Clarice).

IRMÃOS:
Octávio, Juvenal, Francisco, José, Eneas, Álvaro, Silvia, Maria (Lia), Maria José (Zeca), Maria Augusta (Zica), Maria Cândida, Alice e Marta.

*Silvino Abreu é engenheiro químico aposentado e filho de Tonico Abreu.